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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Fala que eu te calo! - Parte 2


As pessoas gostam de repetir histórias. Principalmente as falsas. Parece que quanto mais mentirosas, mais rapidamente se espalham. Na frase atribuída ao ministro da propaganda do governo nazista, Joseph Goebbels, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Muita gente ainda vive por essa máxima. A cada 2 anos temos eleições no Brasil, e além da ladainha típica dos candidatos defendendo saúde, educação e vacina contra paralisia, vemos outras histórias non-sense sendo repetidas ad nauseam.

Uma das mais enviadas nas correntes de email e postadas em 10 de 10 perfis no Facebook é aquela que trata da anulação de uma eleição. Segundo o texto, que comporta diversas versões com pequenas alterações, caso uma eleição tenha mais de 50% de votos nulos, o Tribunal Superior Eleitoral seria obrigado a realizar novas eleições com candidatos diferentes da primeira eleição fracassada. Assim, o texto conclama todos os brasileiros a se manifestarem contra tudo isso que está aí anulando seu voto, limpando nosso país de todos esses políticos corruptos e possibilitando a eleição de uma nova safra de representantes. Estes sim, ilibados e comprometidos com a coisa pública e o bem maior.



Muita gente logo se sente comovida com tal conclame e rapidamente repassa a história para todos os seus contatos, na esperança de que a revolução que vai mudar o Brasil (quiçá o mundo) esteja a apenas um clique de distância. É, de fato, um gesto nobre. E inútil. Completamente. A única coisa que você vai conseguir anulando seu voto é calar sua pequena voz na multidão dos eleitores. Seu grande gesto de manifestação será um grito silencioso sem qualquer repercussão.

Se essa gente toda que corre a repassar a história da anulação da eleição se desse ao trabalho de consultar a legislação que trata do assunto, saberia que tal possibilidade simplesmente não existe. Ainda que todos os eleitores votassem nulo, apenas o voto do próprio candidato já seria suficiente para elegê-lo. A confusão decorre de um entendimento equivocado do artigo 224 do Código Eleitoral, que diz: “Se a nulidade atingir  mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias”.

É necessário entender a diferença entre votos nulos e nulidade da eleição. Enquanto o primeiro diz respeito ao ato individual de digitar um número de candidato inexistente e apertar a tecla verde de confirmação, o último trata de desvios no processo eleitoral em determinada seção ou conjunto de urnas que ocasione a invalidação, ou nulidade, de todos aqueles votos juntamente.



Portanto, meu amigo, antes de anular seu voto, pense bem! Antigamente esse ainda podia ser um evento divertido, quando o eleitor escrevia o nome do candidato na cédula e votava no macaco Tião, no finado Chacrinha ou até no Tiririca (epa! Nesse agora pode!). Já hoje em dia, o ato de anular seu voto, além de inútil, é mais chato que discurso da presidenta na televisão. Ao invés de gritar contra tudo que está aí, e se desinteressar pelo seu voto porque são todos farinha do mesmo saco, investigue a vida dos candidatos, escolha com sabedoria, e vote no melhor (ou menos pior).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fala que eu te calo! - Parte 1


Um dos pontos altos da XVII Conferência Ibero-Americana em Santiago do Chile, foi quando o rei espanhol Dom Juan Carlos I virou-se para o ditador da Venezuela, Hugo Chávez, e soltou um: “¿Por qué no te callas?”, devido às constantes interrupções dele ao discurso do primeiro-ministro espanhol. A frase rapidamente rodou o mundo e virou bordão. De fato, o caudilho venezuelano tem muitos motivos para se calar, mas ele certamente não é o único.



É incrível a velocidade com que as teses mais estúpidas – e falsas – correm a Internet, sem que as pessoas tenham a mínima preocupação com a veracidade daquelas informações. Não gastam um minuto de seu tempo para pesquisar no Google e checar se aquilo, de fato, faz algum sentido. Normalmente não faz.

Dessa forma, tudo quanto é tipo de história absurda vai rodando o mundo, sem que seus propagadores se dêem conta do papel ridículo que estão fazendo. Nessa seção do blog, vamos apontar algumas dessas histórias non-sense e te ajudar a não cair na esparrela.

E pra começar, quero falar de uma dessas histórias que bombou no Facebook nos últimos tempos: supostamente, o famoso arquiteto Oscar Niemeyer estaria muito arrependido agora, no fim da vida, por ter projetado Brasília em forma de um avião. Tendo em vista a grande quantidade de corruptos e bandidos que tomaram conta da política nacional, ele deveria ter projetado a capital no formato de um camburão, ou pinico (sic), dependendo da versão. Colocaram até uma foto do arquiteto com um olhar triste e cabisbaixo de arrependimento.



Realmente, este tema da corrupção nacional comove a todos nós, e quem não se compadeceria com a tristeza do velhinho? O único problema disso tudo é que a história é falsa! Tão mentirosa quanto poderia ser. A começar pelo fato de que Oscar Niemeyer nunca projetou Brasília e nenhuma outra cidade. O responsável pelo projeto urbanístico do plano piloto (ou seja, a forma de avião para a cidade) foi o arquiteto Lúcio Costa, que, inclusive, foi professor do Oscar Niemeyer, este responsável pelo projeto arquitetônico de vários dos prédios públicos da cidade.

Lúcio Costa foi fortemente influenciado pelas ideias do arquiteto francês Le Corbusier, o grande expoente do movimento International Style e nome fundamental para entender a arquitetura do século XX. Foi aberto um concurso para o projeto urbanístico da nova capital, do qual Costa foi o vencedor. E foi assim que nasceu a cidade em forma de avião.



Assim, você que é pessoa de bem e também detesta toda essa corrupção instalada na capital federal, use sua indignação para protestar contra tudo isso, mas sem cair nas mentiras e esparrelas espalhadas por aí.