Era quente o dia, e as crianças brincavam todas no campo. O rio convidava para um delicioso mergulho em suas águas caudalosas e geladas. Logo estava repleto delas. Umas com grandes bóias pretas, que outrora pertenceram à pneus de caminhões, enquanto outras divertiam-se com bolas. Não importava como, mas todas viviam um momento de grande felicidade. Era intenso. As risadas espalhavam-se facilmente por todas as direções. O forte sol queimava à todos, sem fazer distinção alguma. Isso não havia naquele mundo mágico. Era o mundo perfeito.
A colina logo acima refletia os raios solares de fim de tarde, dando à grama um delicioso tom dourado. As árvores balançavam com o vento, num frenético tango e esvoaçar de folhas. O verão já estava terminando e as crianças não pensavam em perder um só segundo dos últimos dias de férias. Logo mais abaixo havia muitas pedras e o rio ficava mais rápido e com forte correnteza. Era perigoso, principalmente para quem não soubesse nadar. Embora as mães sempre desaconselhassem as visitas às pedras, alguns garotos mais intrépidos costumavam não seguir as ordens, e acabavam dando suas demonstrações de coragem, imaginando o que as meninas pensavam. Sentiam-se os reis do pedaço. Mesmo os que não tinham muita coragem, ou ainda não se interessassem pelas garotas, acabavam indo junto, afinal não queriam ser conhecidos como os covardes que amarelavam na hora do perigo; a pressão do grupo era mais forte.
E lá iam eles. Muitos tentavam, sem muito sucesso, ordenar aos joelhos que parassem de se encontrar. Era inevitável o medo. Mas se tratava de manter a reputação no grupo, ninguém queria ficar de fora. Logo estava cheio. Vários deles dentro d’água e muitos outros na beira, olhando e torcendo.
Tony sabia nadar desde os quatro anos. Parecia um peixe na água. Era incrível a rapidez com que se movimentava. Havia nascido para isso. As meninas gritavam por ele. Tinha catorze anos. Era pequeno para sua idade, mas bastante ágil. Também não podia se negar sua beleza, que ajudava, e muito, no trato com as garotas. Sempre fora muito comunicativo e extrovertido. Conversava com todos, era muito brincalhão e tinha muitos amigos. Cabelos loiros, bem curtos, espetados. Olhos azuis, mas não claros, eram escuros, profundos. Cílios bastante longos. Tocava violão na banda da escola. Muito ágil, talvez devido ao tamanho. Lutava capoeira. E por fim, nadava. Sua melhor habilidade.
Estavam todos apoiados nas pedras, esperando o sinal para começarem a nadar. Seria uma competição. O primeiro a chegar até a ilhota e voltasse era o vencedor. Uns trezentos metros, talvez. O sol começava a se pôr e eles deviam ser rápidos. Ninguém queria permanecer por ali quando estivesse escuro. A pequena ilha no centro do rio, no meio das pedras, guardava um segredo de que muitos tinham medo: uma velha cabana de madeira, com telhado de sapê. Parecia abandonada, mas todos tinham medo de se aproximar demais dela, principalmente durante a noite. Uns diziam ser ela mal-assombrada, a verdade é que era realmente muito estranha. Ruídos indecifráveis e barulhos esquisitos eram os comentários mais comuns.
Logo se iniciava a competição, estavam todos muito excitados com tudo aquilo. Em pouco tempo Tony tomou a dianteira, e num piscar de olhos chegava ao final da prova. Havia vencido, uma vez mais. Tudo enfim voltaria a normalidade. Foi abraçado por muitos ao chegar à margem. Já estava acostumado com tudo aquilo. Só não esperava pelo que viria em seguida. Bob, o valentão da turma, vencido mais uma vez, e despeitado, e desmoralizado, convocou Tony para uma última e definitiva prova de bravura: entrar na cabana, durante a noite, sozinho, e trazer uma prova de que estivera lá. E agora? O que faria? Não tinha saída. Estavam todos ali ao redor, esperando uma resposta positiva. Era tudo o que esperavam dele, depois daquela vitória na água. Tudo o que ele tinha que fazer era entrar lá, trazer a prova e voltar correndo. Não podia recuar agora, não agora. Recuar é perder o respeito, respeito conquistado a duras penas. Não. Não ia botar tudo a perder. Aceito! E lá se foi o rapaz. Sozinho, mais uma vez em direção à ilhota.
Já estava escuro, via-se apenas a sombra do sol, descendo pelas montanhas. As árvores escureciam ainda mais o ambiente, dando um ar de filme de terror. As corujas começavam a piar e os morcegos apareciam pela primeira vez desde que amanhecera. Os ruídos eram amedrontadores até mesmo para quem estava em terra firme, longe o suficiente da água, e da cabana. Muitos aproveitaram a escuridão para ir embora. Outros permaneceram no escuro mesmo, enquanto alguns poucos acenderam lanternas, uns três ou quatro, no máximo.
O moleque saiu da água o mais rápido que pode, sabe-se lá o que poderia haver lá embaixo, no escuro? Ele não queria arriscar. Foi andando no meio do mato. Era difícil caminhar por ali. A cabana estava alguns metros à frente, mas era difícil de vê-la no meio de tantas árvores e plantas, ainda mais no escuro. A luz da lua refletia na água, dando um tom acinzentado a toda paisagem. Mas ele permanecia convicto em cumprir o objetivo. Foi em diante com o plano, e enfim deu de cara com uma velha maloca, de madeira, cheia de mato em volta. Estava tudo escuro, mas então ele viu uma pequena luz que brilhava bem lá dentro. Parecia um lampião, bem fraco, quase apagado, mas ainda possível de ser visto. Seu coração bateu mais rápido. A boca secou. As pernas tremeram. Estava a ponto de desistir quando ouviu alguém gritar por ele do outro lado. Eram seus companheiros. Não poderia desaponta-los, nem a si mesmo. Encontrou a porta, estava emperrada. Avistou uma janela, empurrou-a um pouco, e ela cedeu. Não podia ver nada lá dentro. Apenas uma pequenina luz. Uma fraca luz, como de uma estrela distante.
Pulou para dentro e permaneceu parado por alguns segundos. Sentiu um vento gelado entrando dentro dele. Atingindo sua alma. Todo seu pequeno corpo tremeu. Os olhos estavam bem abertos, mas não podia ver nada, apenas a pequena luz. Deu um passo, e então, subitamente a luz ficou mais brilhante, e conforme andava, ela cada vez brilhava mais. Seus olhos não podiam desviar daquele brilho. Sentia-se atraído por ele, como os insetos que voam em direção à uma lâmpada, então sucumbem ao calor, e morrem. Ele foi andando, passo por passo. Um forte brilho invadia todo o recinto. O que seria aquilo? Sua mente estava embaralhada, mal podia pensar. Era apenas aquela luz, o forte brilho que cegava sua visão. Como se o próprio sol estivesse brilhando lá dentro.
Do lado de fora muitos se puseram a correr, sem rumo, sem direção. Corriam da luz. Fugiam da luz. Tony ia à direção contraria. Ouviram-se gritos. Gritos de desespero. Logo a margem estava repleta de curiosos. Muitos pais vieram ver o motivo da demora. Enquanto isso a luz só fazia aumentar de brilho. De repente os gritos também vinham do lado de dentro. Eram gritos de terror. Ninguém sabia o que fazer. Alguém teve a idéia de ir até lá, e quem sabe ajudar. Então foram. Estavam já chegando na beira da singela ilha, quando a luz então cresceu de forma espantosa. Mudava de cor e subia, como fumaça. Todos taparam os olhos por alguns momentos. A luz então foi subindo, e enfim desapareceu. Completamente. Atordoados, os homens que se dispuseram a ajudar correram em direção à cabana. Chegaram até o local, mas lá já não havia mais nada. Apenas um círculo queimado no chão. Mais nada. Nem sombra do menino. Sumira. Em seu lugar apenas um monte de madeira queimada. Uma fumaça preta e escassa que ainda subia. E desde então nunca mais se ouviu falar de Tony.
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