sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Problema do Mal


O mal faz parte da realidade. Faz parte da experiência humana.  O mal é uma força desumanizadora, destruidora, corruptora, degradante. É a causa das maiores mazelas e sofrimentos dos seres humanos. Se você tem um molho de chaves consigo, agora mesmo, isso evidencia que você reconhece a existência de algo que seja mal : ). Todos nós o experimentamos e sentimos sua agudeza. Ele se manifesta em níveis diferentes e em graus de intensidade diferentes.

Os efeitos do mal podem ser sentidos na experiência individual e existencial nas lutas, dificuldades, agruras, dilemas, angústias, crises, sofrimentos, enfermidades e perdas que todo indíviduo experimenta. Podem também ser experimentados pela consciência coletiva, de forma conceitual.

O mal pode ser resultado de desastres e catástrofes no mundo: Maremotos, Terremotos, Tsunamis. A história é pródiga em registrar essas diversas categorias da operação do mal (por assim dizer). Foi Raimond Queneau quem disse que “a história é a ciência da infelicidade do homem”. Em boa medida, há justiça nesta afirmação. Já o historiador britânico Gibbon, disse que “a história é um pouco mais que o registro dos crimes, loucuras e infortúnios da humanidade”. Alguns poucos exemplos:
  • Em 1319  o Vulcão Etna ceifou as vidas de mais de 15.000 pessoas de Cetânia.
  • Neste mesmo período, na baixa idade média, 2/3 da população mundial caiu diante da peste bubônica, a peste negra.
  • Em 1755, aconteceu o infame terremoto de Lisboa, que destruiu a cidade e matou milhares de milhares.
  • Em 1918 a chamada Gripe Espanhola matou de 50 a 130 milhões de pessoas no mundo todo.
  • Em 2004, o Tsunami que atingiu o cosa da Ásia produziu ondas gigantescas que atingiram mais de 800kmh e produziu o efeito de 1000 bombas atômicas, matando 175 mil pessoas
  • Em 2010 ouvimos falar do Terremoto que devastou o Haiti, matando Pelo menos 200 mil pessoas morreram, 300 mil ficaram feridas, 4 mil foram amputadas. Há um milhão de desabrigados. 

Mas há aquele mal que é resultado da degradação moral do homem, da conduta humana, como: deslealdade, corrupção, desonestidade, engano, mentira, indiferença, destruição, violência, assassinatos, guerras, genocídios, etc.

No Brasil tivemos a infame experiência da escravidão, que silenciou milhares de vidas – mas que foi uma fração perto do que a escravidão causou a tantos milhões de vidas, por vários séculos, em outras nações do mundo. Mas as guerras e revoluções causaram danos ainda mais extensos. Existem estimativas que apontam para o fato de que nos últimos 4000 anos, temos menos de 300 sem uma grande guerra, conforme aponta John Blanchard eu seu livro sobre o problema do mal. 

A Primeira Guerra Mundial trouxe destruição de diversas nações e matou mais de 30 milhões de pessoas. Pouco mais de 20 anos após o término desta guerra horrenda, acontece outra ainda pior, cujos números são difíceis de se estimar. Os judeus exterminados de modo cruel  a mando de Adolf Hitler chegam ao impressionante número de 6 milhões. Mulheres, crianças e idosos eram mortos 24 horas por dia, todos os dias, nos infames campos de concentração. Eles foram desumanizados e assassinados de um modo que desafia a imaginação mais perversa que o homem pode produzir.

Outra revolução, esta travestida de uma ideologia que, em tese, busca o “bem social”, foi responsável pela morte de milhões de pessoas nos últimos 70 anos – a revolução comunista, que se manifestou em lugares e épocas diferentes. Stéphane Courtois registra em seu “Livro Negro do Comunismo” uma história de crime, terror, degradação e morte. Ele disse em certo ponto de seu livro que "…os regimes comunistas tornaram o crime em massa e o terror uma forma de governo". Suas estimativas apontam para quase 100 milhões de mortos pelo sistema do “bem comum”. O livro revela dados assustadores.

Algumas dessas mortes são muito bem documentas, como as atrocidades da Revolução Cultural na China de Mao Tsè Tung, que chegava a matar 22.000 pessoas por mês; ou ainda os 1.500.000 de pessoas mortas pelo ditador Pol Pot, do Camboja, nos anos 1970. Em Cuba, foram pelo menos 150 mil os executados pela Revolução liderada por Fidel, seu irmão Raul e o companheiro “Gue Vara”- este último, celebrado como herói em posters e camisetas que tentam expressar algum valor ou ideal através da imagem do homicida.

Destaco aqui, neste parêntese que faço sobre o mal manifestado pela ideologia, um trecho extraído do “Livro Negro do Comunismo”:
Em seu requisitório em Nuremberg, François de Menthon, procurador geral francês, destacava a dimensão ideológica dos crimes: 
“Proponho-me a demonstrar-lhes que toda criminalidade organizada e sistemática decorre do que me permitirei chamar de crime contra o espírito, quero dizer, de uma doutrina que, negando todos os valores espirituais, racionais ou morais, sob os quais os povos tentaram há milênios fazer progredir a condição humana, visa a devolver a Humanidade à barbárie, não mais a barbárie natural e espontânea dos povos primitivos, mas a barbárie demoníaca, já que consciente dela própria e utilizando para os seus fins todos os meios materiais postos à disposição dos homens pela ciência contemporânea. Esse pecado contra o espírito é a falta original do nacional-socialismo da qual todos os crimes decorrem.
O mal existe! Mas não é, todavia, um imperativo absoluto. Não é uma força absoluta. Na fé cristã, o único ser absoluto é Deus.

Definindo o Mal:
No cinema, Christopher Nolan foi feliz em conceber o personagem do “Coringa”em seu segundo filme da trilogia do Batman, como a personificação do mal: não tem origem, não tem ambições pessoais, é destituído de qualquer senso de dignidade e moral, age de modo aparentemente aleatório, causa destruição, medo, terror e extrai o que há de pior aos que o cercam. Parece que o diretor entendeu bem como o mal opera.

Mas definir o mal é uma tarefa espinhosa. Agostinho de Hipona elaborou a ideia de Plotino e definiu o mal como o não bem, ou privação do bem – assim como as treveas são a ausência de luz. Agostinho não via substância no mal e o considerava uma “perversão da vontade desviada da substância suprema” – sendo que esta substância suprema é o Deus das Escrituras Sagradas, o Criador de todas as coisas. Agostinho defende que o Deus cristão é o bem absoluto, a verdade absoluta e summun bonnum, o bem supremo – um bem que é absoluto e incorruptível. Edwards segue esta linha ao defender que, para ser Deus é preciso ser perfeito – pois a imperfeição implica em degradação, envelhecimento e decadência – e, sendo perfeito, não pode haver nele o mal e nem a sujeição ao mal. Todavia, somente Deus é o bem supremo, as coisas criadas, o mundo, está sujeito a corrupção porque sua bondade não é absoluta, é derivada – não poderia haver corrupção se fosse sumamento boa, mas para haver corrupção tem de ser boa.

Ettiene Gilson, ao comentar o problema do mal em Agostinho, conclui que “o mal não pode ser concebido for a do bem”. Afinal, é a compreensão do que é bom que nos permite entender, mensurar e valorar o mal.
Mas o mal também não deve ser definido em termos unicamente negativos. Alan Besainçon, em sua pequena pérola da literatura “A Infelicidade do Século”, que trata dos horrores dos regimes comunista e nazista, não se satisfaz com a definição de Plotino, que dizia que o mal é a ausência do bem. Ele diz “  Parece-me que esta definição não dá conta do horror que se apoderou das pessoas diante do que o comunismo e o nazismo lhes infligiram”.

Ele não torna o mal uma entidade absoluta, mas aponta para sua transcendência para entendê-lo. Diante do mal pelo mal, a saída de muitos daqueles que foram afetados pela violência causada pelos homens com uma cartilha ideológica na mão, segundo Besaiçon, foi acreditar em uma ordem sobre-humana, uma influência maligna.

Por que?
Mas, diante de crimes e atrocidades como estas – e tantas outras, que vemos, ouvimos e vivemos todos os dias – é justo que façamos perguntas. Somos seres morais  e somos capazes de atribuir valores a essas coisas. Nós as rechaçamos. Nós as rejeitamos. Nós as repudiamos. Nós as consideramos vis e perversas. Isso é atribuir valor ao mal. Nele não há virtude, não há beleza, não há direito, não há justiça, não há candura, não há. (Embora, segundo a premissa de certas filosofias, essa valoração moral não faz sentido algum, pois, há algumas cosmovisões que ao propor que Deus não existe e que o homem é um acidente cósmico, reduzem a humanidade a um conjunto de átomos. Um certo ateu disse, que o ser humano é uma espécie de lodo cósmico. Ou Bertrand Russel que disse que o homem é um acidente curioso em água estagnada).

A indignação com a violência é também uma busca por respostas. Elie Wiesel, judeu sobrevivente do Holocausto, perguntou onde estava Deus no meio daquele terror. Ele afirmou que o Holocausto “matou seu Deus, matou sua alma e reduziu seus sonhos a nada”.  O cético David Hume, foi ainda mias ousado quando disse em sua obra “Concerning Natural Religion”: "Se Deus está disposto a impedir o mal, é o caso de Ele querer impedir o mal, mas não ser capaz de fazê-lo? Neste caso ele é impotente. Ele é capaz, mas não está disposto? Então ele é malévolo. Ele é capaz e está disposto? Por que, então, o mal?".

O que desejamos demonstrar é que a fé cristã é a única que oferece respostas ao problema do mal. Não tanto por explicar os meandros de sua origem, mas, muito mais, por oferecer esperança. À parte das Escrituras sagradas,  e veremos isto sendo apresentado de forma mais apropriada pelos palestrantes que seguem, não resta nada senão o desespero. A Bíblia é a única que oferece uma saída, uma luz e alento. Àqueles que sofrem e se indignam com o mal, que saibam que Deus também se indigna, todos os dias, com a impiedade do homem, conforme é registrado nas Escrituras. 

É importante também dizer que os personagens bíblicos também lutaram com o problema do mal. O Salmo 37 e 73 são textos clássicos que trabalham a questão e apresentam o homem clamando por respostas e saída. O livro de Jó é uma das mais belas peças da literatura bíblica e apresenta-nos em perspectiva uma série de eventos trágicos acontecidos na vida de um homem bom e íntegro. Vemos como ele lida com as acusações de ser o responsável por sua desgraça, como ele reage ao mal que lhe foi infligido e como ele interage com Deus nesse torvelinho. Temos ainda o livro de Habacuque, que expõe a indignação do profeta por causa da impiedade. Ele questiona a Deus e, no processo, compreende a soberania de Deus em todas as coisas. Ele conclui dizendo que festeja, que se exulta em Deus.

Sim, a Escritura oferece respostas. Oferece respostas ao mal que habita em nós – nós que somos muitas vezes indignados pelo mal ao nosso redor e fazemos pouco para lidar com o mal que nos aflige e nos humilha tantas vezes – sim, as Escrituras lidam com o mal nosso de cada dia. Lida também com o fim do mal. A Escritura sagrada, a fé cristã oferece uma mensagem de esperança escatológica.

Quero encerrar lembrando que o próprio Deus das Escrituras, na pessoa de Jesus Cristo, foi vitimado pelo mal. Ele mesmo sendo bom, justo, verdadeiro e trazendo uma mensagem de amor, foi injustiçado, caluniado e assassinado. Aquele que é a própria vida teve sua vida tirada. A luz, experimentou as trevas. O summum bonum sentiu a agudeza da maldade. O sol da justiça foi injustiçado. Deus foi assassinado. Mas a Escritura diz que ele ressurgiu. Ressuscitou e vive. Governa. Transforma. Instrui. Conduz. Ilumina. Resgata.

Quem vive ou viveu medo, terror, violência, decepção, que saiba ter em Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, alguém que experimentou as mesas coisas e simpatiza com o nosso sofrimento. Mas, mais do que isso, Jesus venceu o sofrimento. Venceu a morte. Venceu o terror e o mal. Ele vindicará todo mal cometido pelos homens e fará justiça. Ele estende a mão vencedora a todos quantos crerem no nome dele. Foi ele quem disse: "No mundo passareis por aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo."

Christus Victor!

Por Tiago Santos
Editor-Chefe da Editora Fiel


O texto acima é o esboço de uma palestra oferecida em 2 de agosto na livraria Cultura, no shopping Market Place em São Paulo, em um evento organizado em conjunto pelas editoras Fiel, Vida Nova e Hagnos. Os demais palestrantes foram Franklin Ferreira e Luiz Sayão, que falaram sobre o tema "O Problema do Mal". O auditório estava lotado. A capacidade era de 90 pessoas, mas havia cerca de 130 pessoas

terça-feira, 31 de julho de 2012

O LIXO E O SONHO (RATCATCHER) – 1999

Li muitas críticas aclamando o filme “Precisamos falar sobre Kevin”, da diretora escocesa Lynne Ramsey, mas não tive oportunidade, ainda, de assisti-lo. Em compensação, fui privilegiado ao assistir ao primeiro filme da diretora, após três curtas, chamado Ratcatcher e lançado há treze anos, em 1999.


Não deixa de ser um lugar comum quando um filme toma o olhar de uma criança/adolescente como o centro de sua narrativa. Tal idéia pode ser vista de maneiras bem diferentes, por exemplo, no belíssimo filme de Ken Loach, Kes (1969), no complexo e psicológico Fanny e Alexander, do grande Ingmar Bergman (1983) ou mesmo no filme The Kid With a Bike (2012), dos grandes diretores (e irmãos) franceses Jean-Pierre e Luc Dardenne. Porém, o cinema britânico costuma destacar-se pela sensibilidade acerca dessa questão, principalmente na relação da infância com as perdas, crueldade, solidão e famílias desajustadas.

O filme, ambientado na década de 70 nos arredores de Glasgow, tem como panorama político a greve dos lixeiros dentro do um crescimento populacional desenfreado da população proletária e se propõe a mostrar sua pobreza e fraquezas enquanto 'Sistema'. Nesse background, somos colocados de maneira perturbadora dentro da realidade escocesa sob a visão do adolescente James. O início do filme é arrebatador: nos primeiros minutos o protagonista vê, inerte, o afogamento e morte de um colega vizinho, Ryan Quinn. Somos apresentados a um protagonista já dominado pela culpa, vergonha e medo que este acidente lhe causa. Levemente melancólico, o garoto dorme de exaustão e sonha com lixo e inocência, vive uma vida, mas jamais se esquece do menino afogado. Somos apresentados a sua família e aos seus amigos e a um playground tomado por sacos de lixo, devido à greve dos lixeiros, promovendo assim um ambiente degradado, mas meio mágico, com a companhia quase permanente dos ratos. Logo, tudo ao seu redor parece ter o mesmo destino, seja o pai que perambula por vários trabalhos, ou a amiga de vida fácil, que é seu único consolo. Com meia hora de filme, a impressão mais forte é de uma culpa que não me fez sentir culpado, ou seja, é tocante mas deixa-me com um papel de espectador, não apelando aos meus sentimentos pessoais. O filme constitui-se de uma estética crua combinada a um ambiente conturbado, de extremas reviravoltas, onde a esperança se torna um dos únicos artifícios para se continuar vivendo.


Impressiona também forma como o filme é narrado e desenvolvido, já que a diretora Lynne Ramsey não se preocupa com fato desenrolar a história, prolongada até descobrirmos que foi uma escolha consciente. Esteticamente, mesmo com a ousadia de recriar o imaginário do garoto protagonista, o principal fator é uma grande quietude que perpassa o filme, quase um silêncio. É um retrato cruel, minucioso e real de uma juventude perdida e longe dos olhos do mundo. A fotografia é simplesmente impecável e, atenuando alguns grandes momentos de silêncio, a trilha sonora de músicas famosas da década de 70, como por exemplo, “Lollipop”, tornam um roteiro perturbador em uma história de esperança, de redenção. 

A escolha do ator infantil que interpreta o protagonista demonstra o caráter introspectivo, silencioso, realista e reflexivo desejado dentro da ótica juvenil, entre a surpresa e o medo natural das novas experiências que a vida proporciona. Audacioso e ousado, o filme fala da iniciação sexual - com cenas de nu juvenil que jamais passariam nos filmes hollywoodianos – de maneira muito honesta e até poética; consequentemente, essa ousadia não deixa o espectador curioso ou excitado, antes, insere uma aura de sensibilidade e afeto a um garoto predominantemente triste e solitário. Demonstra também a crueldade juvenil, da dor da perda e do alcoolismo do pai, de maneira não estereotipada, mas brutal e poética.  




O filme transcorre como um retrato de época e de geração dos mais sensíveis e sutis vistos em muito tempo, até seu fim. É um filme seguro e sensível, e ao mesmo tempo perturbador, sobre as experiências de um menino pobre, enquanto ele luta para conciliar seus sonhos e sua culpa com a abjeção que o rodeia. Mesmo dentro de um tema complexo, difícil e indigesto, o simples roteiro se sobressai maravilhosamente com a batuta artística impecável da diretora Lynne Ramsey. É sutil, perplexo, pungente, com cenas que atenuam a dureza geral, até que ela por fim cede, restando apenas uma bonita dor. A metáfora final, quando cada membro da família carregando um pouco da construção final para a chegada ao paraíso, emociona e traduz a essência do filme.

É um dos filmes mais profundos e belos que tive a experiência e o prazer de assistir. 


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Carta ao Povo de São Paulo e do Brasil


A Polícia Militar defende e protege 42 milhões de pessoas que residem no estado de São Paulo. Para quem pergunta se a população confia na Polícia, os números falam por si: no último ano, atendemos a mais de 43 milhões de chamados de pessoas pedindo ajuda, socorro e proteção; realizamos 35 milhões de intervenções policiais, 12 milhões de abordagens, 310 mil resgates e remoções de feridos e 128 mil prisões em flagrante (89 mil adultos e 39 mil “adolescentes infratores”); apreendemos 70 toneladas de drogas e mais de 12 mil armas ilegais; recuperamos 60 mil veículos roubados e furtados. De janeiro a junho, a população carcerária do estado cresceu de 180 mil para 190 mil presos, o que representa 40% de todos os presos do Brasil.
O estado de São Paulo ocupa o 25º lugar no Mapa da Violência 2012, publicado em maio pelo Instituto Sangari e registra hoje uma taxa de 10 homicídios/100 mil habitantes, uma das mais baixas do país. Só para ilustrar, o Rio de Janeiro registra a taxa de 30 homicídios/100 mil habitantes, e Alagoas chegou à impressionante taxa de 73 homicídios/100 mil habitantes. Tudo isso parece incomodar muito algumas pessoas, que tentam, por várias medidas, atacar e enfraquecer uma das mais bem preparadas e ativas polícias do nosso país. Essas pessoas ignoram muitos fatos e verdades. Neste ano, tivemos mais de 50 policiais militares assassinados covardemente e temos hoje mais de 5 mil policiais militares que ficaram inválidos na luta contra o crime.
Mesmo assim, não iremos nos acovardar. A Polícia Militar de São Paulo continuará sendo a força e a proteção das pessoas de bem que vivem em nosso Estado. Como policial, tenho orgulho de fazer parte dessa grande instituição e, como comandante, tenho orgulho dos 100 mil profissionais que trabalham comigo na luta contra o crime.
Peço a todas a pessoas de bem que acreditam em nosso trabalho que divulguem essa carta.
Muito obrigado!!!
Roberval Ferreira França
Coronel PM
Comandante Geral

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Fala que eu te calo! - Parte 2


As pessoas gostam de repetir histórias. Principalmente as falsas. Parece que quanto mais mentirosas, mais rapidamente se espalham. Na frase atribuída ao ministro da propaganda do governo nazista, Joseph Goebbels, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Muita gente ainda vive por essa máxima. A cada 2 anos temos eleições no Brasil, e além da ladainha típica dos candidatos defendendo saúde, educação e vacina contra paralisia, vemos outras histórias non-sense sendo repetidas ad nauseam.

Uma das mais enviadas nas correntes de email e postadas em 10 de 10 perfis no Facebook é aquela que trata da anulação de uma eleição. Segundo o texto, que comporta diversas versões com pequenas alterações, caso uma eleição tenha mais de 50% de votos nulos, o Tribunal Superior Eleitoral seria obrigado a realizar novas eleições com candidatos diferentes da primeira eleição fracassada. Assim, o texto conclama todos os brasileiros a se manifestarem contra tudo isso que está aí anulando seu voto, limpando nosso país de todos esses políticos corruptos e possibilitando a eleição de uma nova safra de representantes. Estes sim, ilibados e comprometidos com a coisa pública e o bem maior.



Muita gente logo se sente comovida com tal conclame e rapidamente repassa a história para todos os seus contatos, na esperança de que a revolução que vai mudar o Brasil (quiçá o mundo) esteja a apenas um clique de distância. É, de fato, um gesto nobre. E inútil. Completamente. A única coisa que você vai conseguir anulando seu voto é calar sua pequena voz na multidão dos eleitores. Seu grande gesto de manifestação será um grito silencioso sem qualquer repercussão.

Se essa gente toda que corre a repassar a história da anulação da eleição se desse ao trabalho de consultar a legislação que trata do assunto, saberia que tal possibilidade simplesmente não existe. Ainda que todos os eleitores votassem nulo, apenas o voto do próprio candidato já seria suficiente para elegê-lo. A confusão decorre de um entendimento equivocado do artigo 224 do Código Eleitoral, que diz: “Se a nulidade atingir  mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias”.

É necessário entender a diferença entre votos nulos e nulidade da eleição. Enquanto o primeiro diz respeito ao ato individual de digitar um número de candidato inexistente e apertar a tecla verde de confirmação, o último trata de desvios no processo eleitoral em determinada seção ou conjunto de urnas que ocasione a invalidação, ou nulidade, de todos aqueles votos juntamente.



Portanto, meu amigo, antes de anular seu voto, pense bem! Antigamente esse ainda podia ser um evento divertido, quando o eleitor escrevia o nome do candidato na cédula e votava no macaco Tião, no finado Chacrinha ou até no Tiririca (epa! Nesse agora pode!). Já hoje em dia, o ato de anular seu voto, além de inútil, é mais chato que discurso da presidenta na televisão. Ao invés de gritar contra tudo que está aí, e se desinteressar pelo seu voto porque são todos farinha do mesmo saco, investigue a vida dos candidatos, escolha com sabedoria, e vote no melhor (ou menos pior).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Até breve

Pois é... achei que fosse conseguir manter o blog atualizado e casar ao mesmo tempo. Estava enganado! =D

Mas em breve devo voltar. Tenho vários assuntos em pauta aguardando.

Um abraço a todos!

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Jovem e o Ancião


O jovem conversa com um camponês de 103 anos: 
- Não tem eletricidade aqui?


- Não precisamos dela. As pessoas se acostumam com a conveniência, acham que a conveniência é melhor. Jogam fora o que é realmente bom. 


- Mas, e a iluminação? 


- Temos velas e óleo de linhaça. 


- Mas a noite é tão escura...


 
- Sim. A noite tem de ser assim... Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não gostaria de não conseguir ver as estrelas à noite.Tentamos viver do modo como o homem vivia antigamente. É o modo natural de viver. Hoje em dia, as pessoas se esquecem de que elas são parte da natureza. Destroem a natureza da qual nossa vida depende. 
Acham que sempre podem criar algo melhor. Sobretudo os cientistas. Eles podem ser inteligentes, mas a maioria não entende o coração da natureza. Eles só criam coisas que acabam tornando as pessoas infelizes. Mesmo assim, orgulham-se tanto de suas invenções. E, o que é pior, a maioria das pessoas também se orgulha. Elas as vêem como milagres. Idolatram-nas. Elas não sabem, mas estão perdendo a natureza. Não percebem que vão morrer.

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No Salmos 104 vemos que a glória de Deus é manifestada na criação e na conservação de todas as coisas - tanto nas grandiosas, como os céus, as águas, as nuvens, os ventos, os mares, como nas pequenas, o capim, a verdura, os pássaros, o vinho, o pão. Observando tanta beleza, é possível compreender a admiração do salmista, que proclama: “A glória do Senhor seja para sempre!” (Salmos 104:31).

A espiritualidade moderna, nos dizeres de Guilherme de Carvalho, tirou Deus das coisas do mundo. Lá está Ele, na Igreja, na Bíblia, nos momentos diários de louvor, nas orações. Entretanto, agindo de forma individualista e imediatista com o meio à nossa volta, esquecemos que a criação reflete a Sua glória e soberania. Apenas entendendo nosso papel como cristãos perante a criação, mediante o qual Deus e o universo se diferem, e ao mesmo tempo se aproximam, poderemos desfrutar- e cuidar!- de nosso planeta. 

“Ame toda a criação de Deus, ela inteira e cada grão de areia nela. Ame cada folha, cada raio de luz de Deus. Se amar tudo, perceberá o mistério divino nas coisas”
Dostoiévski

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A FITA BRANCA - MICHAEL HANEKE


A FITA BRANCA (Das Weiße Band)

Alemanha / França / Áustria / Itália, 2009 – 145 min. – Drama -

Direção: Michael Haneke / Roteiro: Michael Haneke

Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaussner.

Não há inovação nos filmes de Michael Haneke; o diretor de A Fita Branca (Das Weiße Band), da mesma maneira que analisa crimes de ódio em seu filme, Violência Gratuita, agora parte em busca da origem do crime de ódio mais filmado, analisado e estudado do século 20, o Holocausto. Como o subtítulo original do filme já declara A Fita Branca – “Eine Deutsche Kindergeschichte”, ou “Uma História para Crianças alemãs” (via Google Traduções), mostra que os jovens tramam uma terrível vingança sobre o mundo dos adultos. O filme apresenta personagens em ações e situações macabras de violência primitiva em um passado obscuro e vago, sem a especificidade de nomes, lugares e épocas só emergindo gradualmente. Mas, se você já é familiarizado com o diretor – o mesmo dos filmes Violência Gratuita e Caché – então não se assustará com a retratação da violência em seu estado mais puro.

O filme é ambientado em uma aldeia germânica, em 1913, e narrado em off por um dos personagens, um professor que na época dos acontecimentos tinha 31 anos e recorda sobre os crimes e acidentes que abalaram o vilarejo. Antes de tais acontecimentos, reinava uma espécie de paz baseada em uma espécie de hierarquia: Há o barão dono das terras e seus empregados submissos; um médico autoritário; uma parteira cujo filho tem problemas mentais; um pastor protestante; e um grande grupo de crianças assustadas e reprimidas diante da austera autoridade dos adultos. De repente, tudo se desestabiliza. Em longos planos, o médico se acidenta; o filho da parteira é atacado; o mesmo acontece com o filho do barão; e um dos filhos do pastor é submetido a castigos. A fotografia em preto e branco só reforça a frieza e o distanciamento pretendidos por Haneke.

O fato é que a punição, embalada como disciplina, está enraizada no vilarejo - e a fita branca do título, que o pastor local força dois de seus filhos a usar, como sinal de vergonha por pecados cometidos, é obviamente a antevisão da futura etiquetação anti-semita de judeus nos princípios da Segunda Guerra. Costuma-se crer que Hitler chegou ao poder auxiliado pelo rancor que os alemães sentiam após a devastação do país na Primeira Guerra, mas para Haneke o embrião do mal é anterior.

O preto e branco de A Fita Branca deixa claro seu poder. É um documento impressionante da opressão religiosa e econômica. Embora emotivamente narrado pelo professor da escola, o cineasta detalha os terríveis acontecimentos da cidade, costurando um retrato de descontentamento brutalmente abafado pela repressão e da ameaça de exclusão da comunidade. Ordenadamente desdobradas e fortemente ligadas, “A Fita Branca” controla como um romance, introduzindo a violência e a suspeita de que os ventos de tensão e explosões quase polidas se revelem. Novamente, uma odisséia soberbamente estrangulada de desprezo e repugnância que atrai (aqueles que não dormiram ou cochilaram ao meu lado devido sua narrativa lenta) o espectador com uma calma surpreendente. Ricamente desenhado e complexamente mergulhado em nítidas e perfeitamente calibradas paisagens em preto-e-branco nos interiores das casas sombrias e um exterior encharcado de luz; um trabalho de pavor imenso construído sobre uma comunidade de condenados, em vez de um conhecimento de ideologias. E a maneira que o diretor austríaco encontra para dar rosto a esse mal é agressivamente despojada: close-ups de caras limpas, de feições sem traços de culpa ou de remorso, sem traço mesmo de ódio - ainda que esse ódio, nós sabemos, exploda de tempos em tempos. Um personagem diz, em algum momento, certeiro, que se trata de um ódio pior: os linchadores odeiam a si mesmos. De novo, como em Caché, a questão é entender quem é de fato a vítima.

Apenas afirmar que A Fita Branca fala sobre a origem do nazismo é querer olhar a superfície e achar que viu tudo. O filme é hábil e convincente, silencioso e sutil ao mostrar como a violência física e verbal pode ser transmitida às crianças impressionáveis e essas tentam imitar os pais. Machismo e uma visão deformada do Cristianismo, com ênfase no julgamento, culpa e castigo também se tornam catalisadores primários para o tratamento desumano dos outros, especialmente aqueles que são vistos como estranhos ou inimigos.

É quando a prevenção do mal se torna mais importante do que a preservação da liberdade. Haneke se recusa a fazer afirmações categóricas, preferindo deixar-nos questionar nossas próprias noções de crime e castigo e os fatores que levam as pessoas ao ódio e à violência. Este é o cinema do desconforto – não espere uma conclusão amortecida.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

CANNES 2012 - OS VENCEDORES


PALMA DE OURO

Acabou neste domingo a edição 2012 do Festival de Cannes. Em cerimônia apresentada pela francesa Berenice Bejo (O Artista"), a Palma de Ouro foi entregue a Michael Haneke, que já foi premiado antes no festival por A Fita Branca, pelo filme Amour. Conheça os vencedores:


PALMA DE OURO

‘Amour’, de Michael Haneke
GRANDE PRÉMIO
‘Reality’, de Matteo Garrone
MELHOR ATRIZ
Cristina Flutur e Cosmina Stratan em ‘Beyond the Hills’
MELHOR ATOR
Mads Mikkelsen em ‘The Hunt’
MELHOR REALIZADOR
Carlos Reygadas por ‘Post Tenebras Lux’
MELHOR ARGUMENTO
‘Beyond the Hills’, de Cristian Mungiu
PRÉMIO DO JÚRI
‘The Angels’ Share’, de Ken Loach
CAMÉRA D´OR
‘Les Betes du Sud Sauvage’, de Benh Zeitlin
PALMA DE OURO – CURTA-METRAGEM
‘Silence’, de L. Rezan Yesilbas

PRÉMIO UN CERTAIN REGARD
PRÉMIO UN CERTAIN REGARD
‘Después de Lucia’, de Michel Franco
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
‘Le Grand Soir’, de Gustave de Kervern e Benoît Delépine
MENÇÃO ESPECIAL DO JÚRI
‘Djeca’, de Aida Begic
MELHOR ATRIZ
Émilie Dequenne em ‘À Perdre la Raison’
Suzanne Clément em ‘Laurence Anyways’

Até o próximo post, galera.



Dias Finais - Cannes 2012


DIA 09 - CANNES 2012
Dia 24 de Maio, foi o nono dia do Festival de Cannes, onde tivemos a exibição de ‘The Paperboy’, de Lee Daniels, que junta Matthew McConaughey, Nicole Kidman e Zac Efron, num filmeque obteve bastantes críticas negativas. ‘Post Tenebras Lux’ foi outro dos filmes em exibição, na secção Em Competição. Realizado e escrito por Carlos Reygadas, este filme marca o regresso de Reygadas a Cannes, depois de em 2005 ter estado Em Competição com ‘Battle in Heaven’ e em 2007 ter vencido o prémio do júri com ‘Silent Light’.
‘THE PAPERBOY’

1969, Lately, Florida. Ward Jansen, repórter no Miami Times, volta à sua cidade natal, acompanhado do parceiro de escrita Yardley Acheman. Vieram à procura de Charlotte, mulher enigmática que mantém uma correspondência com detidos no corredor da morte, e vão investigar o caso Hillary Van Wetter, um caçador de jacarés que se arrisca a ser executado sem provas conclusivas. Persuadidos em fazer o artigo que irá relançar as suas carreiras, percorrem a região conduzidos por Jack Jansen, o irmão mais novo de Ward, que entrega o jornal local nos tempos livres. Fascinado pela perturbadora Charlotte, Jack leva-os da prisão de Moat County até aos pântanos, onde os segredos se tornam cada vez mais pesados. O inquérito avança no coração desta Florida úmida e esmagadora e revela que, por vezes, a procura da verdade pode ser fonte de muitos males.
‘The Paperboy’ é uma tremenda montanha russa de altos e baixos. Tenho a certeza de que 95% dos críticos irá discordar comigo, mas gostei bem mais deste filme do que de ‘Precious’. Pode não ter aquela qualidade para Óscar, mas é certamente um trabalho mais interessante. De qualquer forma, este filme sofre do mesmo mal que o filme anterior de [Lee] Daniels, que é a estrutura narrativa. [...] Não existe nada de errado com a história em si, mas Daniels é um péssimo narrador visual. A sua forma de dirigir o filme faz com que o mesmo se pareça fragmentado. [...] Se eu recomendo ‘The Paperboy’? Sim, provávelmente porque Nicole Kidman precisa de ser notada pelo seu trabalho. Será que ganha em Cannes? Certamente que não.
‘POST TENEBRAS LUX’
Juan e a sua família deixaram a Cidade do México para se mudarem para o campo, onde gozam e sofrem um mundo à parte. E ninguém sabe se esses dois mundos são complementares ou se tendem a eliminar-se um ao outro.
A Variety se encarrega do comentário: O independente cineasta Carlos Reygadas compara ‘Post Tenebras Lux’ a uma pintura expressionista. Muitos o definirão como “complexo”, possivelmente porque será a palavra mais amável para definir esta desafiante história sobre uma família que vive na grandeza do campo mexicano. Decerto que o realizador não espera que tentemos arranjar uma forma lógica de encaixar as peças deste filme. [...] Visualmente é maravilhoso, e alguns temas de filmes anteriores de Reygadas surgem aqui e ali. [...] Apesar das vendas em Cannes estarem a acontecer de forma moderada, ‘Post Tenebras Lux’ ficará decerto nas sombras.

DIA 10 - CANNES 2012
No dia 25 de Maio foi dia de David Cronenberg e o seu antecipado ‘Cosmopólis’, que obteve um misto de críticas positivas e negativas, nesta adaptação do romance de Don DeLillo.
Na secção ‘Un Certain Regard’ foi exibido 
‘Después de Lucia’, um drama sobre o forte tema do bullying, do cineasta mexicano  Michel Franco.

‘COSMOPOLIS’
Num Nova-Iorque em ebulição, a era do capitalismo chega ao fim. Eric Packer, golden boy da alta finança, entra apressado na sua limousine branca. Enquanto a visita do Presidente dos Estados Unidos paralisa Manhattan, Eric Packer só tem uma ideia: cortar o cabelo no seu cabeleiro no outro lado da cidade. À medida que vai decorrendo o dia, o caos instala-se, e assista, impotente, à queda do seu império. Também tem a certeza de que vai ser assassinado. Quando? Onde? Ele prepara-se para viver as 24 horas mais importantes da vida dele.
Se ‘Um Método Perigoso’ marcou uma mudança para David Cronenberg, então ‘Cosmopólis’ é o regresso do realizador à sua excelente forma. O filme tem toques de ‘eXistenZ’ e de alguns trabalhos anteriores a esse. É passado num mundo bizarro e claustrofóbico, tal como esperamos de Cronenberg. ‘Cosmopólis’ é um filme que pode beneficiar de vários visionamentos; é tão denso e rico nas suas questões sobre o mundo, que a audiência pode sentir que está a perder alguma coisa. 
‘DESPUES DE LUCIA’
Desde que Roberto é viúvo, já não trata muito da filha Alejandra de 15 anos. Depressivo, decide mudar-se para o México. Na nova escola, a filha vai suportar abusos psicológicos, sexuais e humiliações para não criar mais problemas ao pai. Pai e filha afastam-se cada vez mais, a violência está presente em todos os aspetos da sua vida.
Michel Franco criou um filme que se passa num ritmo lento. Durante os 103 minutos de duração, sentimos que este é um estudo de personagens e um retrato do bullying, mas no bruto acto final, o tema é finalmente revelado. [...] O filme nem sempre é fácil de ver, e traz problemas que poderemos pensar que estão esquecidos. As interpretações são subtis, e apesar de nem sempre concordarmos com as acções da protagonista, elas são compreensiveis, tendo em conta que estas personagens foram levadas ao limite na procura de conforto e de um lar.



sexta-feira, 25 de maio de 2012


CANNES 2012 – DIA 20 DE MAIO

Dia 20 de Maio, foi dia do novo filme de Michael Haneke, ‘Amour’, que marca o regresso do cineasta a Cannes depois de ter vencido a Palma de Ouro com ‘O Laço Branco’ em 2009.
‘Jagten’ foi outra das exibições do dia. Esta marca o regresso de Thomas Vinterberg, que criou juntamente com Lars Von Trier o movimento Dogma 95, que valoriza a interpretação naturalista, não existindo uma pós-produção.

‘AMOUR’

Georges e Anne são octogenários, são pessoas cultas, professores de música reformados. A filha, igualmente música, vive no estrangeiro com a família. Um dia, Anne é vítima de um acidente. O amor que une este casal vai ser posto à prova.

Com cerca de duas horas de duração, ‘Amour’ nunca vira costas à maldade do envelhecimento, de perdermos lentamente a noção da realidade e de quem somos. Mas este é o tipo de filme que só consegue ser bem sucedido se existir um total compromisso por parte do elenco. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva têm duas das melhores interpretações deste Festival de Cannes. Maravilhosamente filmado por Darius Khondji e magistralmente realizado por [Michael] Haneke, a entrega à narrativa pode ser demais para algumas pessoas. ‘Amour’ é o trabalho de um cineasta que não tem medo de levantar grandes questões sobre a natureza humana. Amour’ é um filme sobre amor e a vida, e todas as tragédias e milagres com que nos deparamos enquanto cá estamos. Um grande artista consegue alterar permanentemente a nossa visão da vida, e Haneke consegue esse feito. Ele pega numa palavra e explica-a brilhantemente, com a mesma magia e delicadeza com que captura algo selvagem que voou por uma janela.

‘JAGTEN’

Após um divórcio difícil, Lucas, quarenta anos, tem uma nova namorada, um novo trabalho e aplica-se na reconstrução da sua relação com Marcus, o filho adolescente. Mas há algo que não corre bem. Quase nada. Uma observação passageira. Uma mentira fortuita. E quando a neve começa a cair e as luzes de Natal se iluminam, a mentira espalha-se como um vírus invisível. O estupor e a desconfiança propagam-se e a pequena comunidade mergulha na histeria colectiva, obrigando Lucas a lutar para salvar a vida e a dignidade.

‘Jagten’ tem pistas de ‘Cães de Palha’ e de ‘Dogville’ no seu retrato da histeria em grupo. Mas claro que regressa aos temas abordados em ‘Festen’: como a família e a comunidade, que supostamente nos protege do caos e infelicidade, conseguem virar-se uns contra os outros. A interpretação de Mikkelsen é totalmente convincente e plausível, transformando ‘Jagten’ num insuportável thriller dramático. A cinematografia de Charlotte Bruus Cristensen está estrondosa, e Mikkelsen, possivelmente mais conhecido pelo seu papel de vilão em ‘Casino Royale’, mostra o excelente ator que é. As comparações entre ‘Jagten’ e ‘Festen’ são simplesmente inevitáveis – ambos abrangem temas de abuso sexual e a força dos boatos, mas a maior diferença está na forma como ambas as histórias estão construidas. ‘Jagten’ é um filme que vai ficar comigo muito depois de escrever esta crítica; irá assombrar-me durante dias com a sua natureza descomprometida. Um filme angustiante e fascinante, que está magnificamente contado, capturado e interpretado. Se dúvida o melhor filme de [Thomas] Vinterberg desde ‘Festen’.

CANNES 2012 – DIA 21 DE MAIO

No sexto dia do Festival de Cannes, dia 21 de Maio, foi exibido o novo filme de Abbas Kiarostami, ‘Like Someone in Love’, que regressa a Cannes depois de em 2010 ter estado em Competição com ‘Cópia Certificada’ – que venceu o prémio de Melhor Atriz. Hong Sang-soo regressa pela oitava vez ao Festival de Cannes, com ‘Da-reun na-ra-e-suh’ (‘In Another Country’), que desta vez compete pela Palma de Ouro.

‘LIKE SOMEONE IN LOVE’

Um velho e uma jovem encontram-se em Tóquio. Ela não sabe nada dele, ele pensa conhecê-la. Ele abre-lhe a casa, ela propõe-lhe o seu corpo. Mas nada o que se tece entre eles no espaço de vinte e quatro horas tem a ver com as circunstâncias deste encontro.
‘Like Someone in Love’  é outra história de amor, relacionamentos e identidade, onde até metade do filme parece uma versão morna de ‘Cópia Certificada’, até acabar por perder um pouco o controle.  Kiarostami passa o filme a brincar com a ideia de imagem e identidade, mas infelizmente ‘Like Someone in Love’ não tem a profundidade intelectual de ‘Cópia Certificada’. O filme é muitas vezes belo de se ver, mas existe um limite no que toca a cenas onde as personagens andam de carro. Enigmático e aborrecido até graus desesperantes, ‘Like Someone in Love’ vê Kiarostami a patinar.

‘DA-REUN NA-RA-E-SUH’

Num país que não é o seu, uma mulher que não é ao mesmo tempo verdadeiramente a mesma nem verdadeiramente a outra, encontrou, encontra e encontrará no mesmo local as mesmas pessoas que a farão viver a cada uma das vezes uma experiência inédita.
Existem duas maneiras de ver ‘Da-reun Na-Ra-e-suh’: como três curtas-metragens separadas que por coincidência se passam na mesma cidade e tem sempre uma mulher chamada Anne (Isabelle Huppert). Outra das formas, que pode não ser aparente até ao fim do filme, é que as histórias se passam todas ao mesmo tempo, dando a ideia de que as Annes que surgem são a mesma pessoa, um mulher que está a aprender a lidar com perdas que foi encontrando na vida. ‘Da-reun Na-Ra-e-suh’ é um filme que irá inspirar debates e conversas. Nada é transparente – tirando a forma como as personagens interagem umas com as outras – e a audiência tem que chegar às suas próprias conclusões. ‘Da-reun Na-Ra-e-suh’ é um filme calmo, mas que irá deixar a audiência a pensar e moer a ideia de personalidade e perda.

CANNES 2012 – DIA 22 DE MAIO

‘Killing Them Softly’ de Andrew Dominik – que inicialmente se intitulada ‘Cogan’s Trade’, foi exibido ontem, dia 22 de Maio, no Festival de Cannes. ‘The Angels’ Share’ é o novo filme de Ken Loach, que já é um dos habituais nos Festivais de Cannes. Em 2006 venceu a Palma de Ouro com ‘The Wind That Shakes the Barley’; esteve presente em 2009 e 2010 na secção Em Competição, com ‘Looking for Eric’ e ‘Route Irish’.

‘KILLING THEM SOFTLY’

Quando um jogo de poker ilegal é desmantelado, é todo o mundo de níveis baixos da cambada que fica ameaçado. Os grandes da Mafia recorrem a Jackie Cogan para encontrar os culpados. Mas entre comanditários indecisos, burlões, assassinos cansados e os que tramaram, Cogan vai ter problemas em manter o controlo de uma situação que degenera…
Este é um daqueles filmes que se vai revelando por camadas – violência com muito estilo, diálogos penetrantes, e o ocasional banho de sangue, um pouco à Scorsese. Mas nunca foi intenção assemelhar-se a um filme de Scorsese, ou de Tarantino – apesar das cenas iniciais nos obrigar a fazer tais comparações. A surpresa é que o filme acaba por não ser nada esse género. Este não é um filme sobre violência furtuita e disparatada. Nem é um filme sobre a máfia. É um filme sobre terminarmos o nosso trabalho, de forma rápida e suja, tudo por uma recompensa choruda. No fundo é um declamação raivosa sobre o estado atual dos Estados Unidos.

‘THE ANGELS’ SHARE’

Em Glasgow, Robbie, um jovem pai de família, é constantemente apanhado pelo seu passado de delinqüente. Cruza o caminho de Rhino, de Albert e da jovem Mo quando, como eles, escapa por pouco à prisão, sendo no entanto punido com uma pena de trabalhos de interesses gerais. Henri, o educador que lhes foi atribuído, torna-se então o seu novo mentor iniciando-os secretamente… na arte do whisky! De destilarias a sessões de provas selecionadas, Robbie descobre em si um talento real de provador, conseguindo identificar pouco depois as colheitas mais excepcionais, mais caras. Com os seus três camaradas, será que Robbie se vai contentar em transformar este dom em burla, uma etapa a mais na sua vida de pequenos delitos e de violência? Ou em novo futuro, cheio de promessas? Só os anjos o sabem...

A mais recente colaboração de Ken Loach com o argumentista (roteirista) Paul Laverty é divertida, calorosa e de boa natureza. Loach tem um registro cômico – com mais piada que ‘Looking for Eric’ – que não recorre ao cinismo ou à ironia. Em muitas maneiras, este é o seu filme mais calmo e bem sucedido dos últimos anos. ‘The Angels’ Share’ poderá servir como companheiro de ‘Sweet Sixteen’, ou mesmo do seu clássico mais antigo, ‘Kes’. Em certos aspectos, ‘The Angels’ Share’ é um road movie, mesmo que sejam as personagens que sobressaiam mais nessa jornada. O toque pessoal de Loach permite que o filme nunca pareça encenado.  ‘The Angels’ Share’ tem similaridades com ‘Looking for Eric’ – tem aquela qualidade humana que é a sinceridade, e personagens que nós queremos desesperadamente que sejam bem sucedidas, apesar de alguns atos errados e más decisões. As interpretações estão fabulosas – Brannigan é um protagonista encantador, que a audiência vê a crescer ao longo do filme.

CANNES 2012 – DIA 08
No dia 23 de Maio, o oitavo dia do Festival de Cannes, foi dia de ‘On The Road’, esperado filme de Walter Salles que adapta o famoso romance de Jack Kerouac. ‘Io e Te’ foi outro dos filmes exibidos, e que marca o regresso de Bernardo Bertolucci – que já não realizava desde ‘The Dreamers’ de 2003.

‘ON THE ROAD’


Bem feito, mas vazio, ‘On the Road’ consegue capturar o espírito da américa dos anos 40, num filme centrado numa viagem pelo país, com cigarros, sexo, bebida e roubo de comida e gasolina. Infelizmente como narrativa tem muito pouco a dizer. O resultado entediante desta adaptação do famoso romance de Jack Kerouac é infeliz, mesmo tendo em conta a cinematografia fabulosa de Eric Gautier, a realização de Walter Salles e as interpretações de topo. De uma forma geral, este não é um grande filme. É repetitivo e entediante, uma cena atrás da outra, acabando por não existir distinção, muito diferente de outro road movie, Into the Wild, dirigido magistralmente por Sean Penn.

Se existe alguma coisa que afeta ‘On the Road’, é sem dúvida que o filme está repleto de cenas – sexo, drogas, ser livre – que são muito mais gratificantes se formos nós a fazê-las, do que visualizá-las na tela do cinema. A fotografia de Eric Gautier (‘Into the Wild’, ‘A Christmas Tale’) é fabulosa, mas passado algum tempo o filme parece-nos como qualquer outro road movie – não interessa o quão bonito é o cenário, eventualmente vamos querer sair do carro.  [Walter] Salles pode ter conseguido fazer uma adaptação fiel do romance de Kerouac, mas com o passar do tempo começamos a desejar por uma adaptação menos fiel e uma história mais cinemática.


‘IO E TE’

Lorenzo é um jovem solitário de 14 anos, diferente dos outros. Vai enganar os pais e faltar a uma viagem escolar de esqui para realizar o sonho de se esconder numa cave abandonada do prédio onde mora. Durante toda uma semana, poderá finalmente evitar todos os conflitos e as pressões e comportar-se como um adolescente “normal”. Quer viver no isolamento total com a sua música e livros preferidos. Mas a chegada inesperada da meia-irmã Olivia vai mudar tudo. Ela é mais velha e tem a experiência do mundo. O tempo que vão passar juntos vai inspirar Lorenzo, que um dia poderá dizer adeus à sua vida de miúdo e lançar-se na confusão da vida dos adultos.

Bertolucci continua um elegante artesão. A luz nítida e texturizada de Fabio Cianchetti, bem como a produção de Jean Rabasse, dá vida e densidade a este espaço confinado. A inquieta banda sonora  de Franco Piersanti é bem entremeada com músicas de The Cure, Red Hot Chili Peppers, Arcade Fire e David Bowie. Apesar de ser recompensador ver que Bertolucci regressa com algo significativo, este é um filme que adiciona pouco significado há já muito viajada estrada cinematográfica da solidão e confusão juvenil.

Bertolucci, bem como os atores Antinori e Falco, traçam uma relação tocante e crescente que se vai desenvolvendo: não existe uma grande amizade, não são amantes – mas estranhos aliados contra a infelicidade que o mundo lhes oferece. A última imagem é possivelmente um aceno a Truffaut, apesar do final como um todo ser um pouco apressado. Este espirituoso e forte filme de Bertolucci mostrou a Cannes que ele ainda é uma força a ser reconhecida.


E os primeiros vencedores estão sendo anunciados. O júri da 51ª edição da Semana da Crítica de Cannes, liderado por Bertrand Bonello, apresentou os vencedores deste ano, com destaque para o filme ‘Aquí y Allá’, que venceu o Grande Prémio.

LONGAS-METRAGENS

Grande Prémio
‘Aquí y Allá‘, de 
Antonio Méndez Esparza

Prémio Visionário
‘Sofia’s Last Ambulance’, de Ilian Metev

Prémio SACD
‘God’s Neighbours’, de Meni Yaesh

Prémio ACID/ CCAS
‘Los Salvajes’, de Alejandro Fadel
 CURTAS-METRAGENS
Prémio Descoberta
‘A 
Sunday Morning’, de Damien Manivel

Menção Honrosa
‘O Duplo’, de Juliana Rojas

Prémio Canal+
‘Circle Line’, de Shin Suwon